Caipira da capital

25 jul

É comum a quem mora em grandes metrópoles achar que o mundo se resume à sua cidade. O mundo lá fora é caipira, desatualizado, e o que há de interessante se resume às belezas naturais ou tradições típicas de cada região específica do interior do país, enquanto coisas que envolvam tecnologia, inovação, sofisticação, a capital estará sempre anos à frente. Muitas vezes não é nem que se pense que lá fora não possa ter algo do mesmo padrão que em sua grande metrópole, simplesmente não se pensa, não existe o assunto do que há lá fora ou não. Esse é o caipira da capital, e o dia que esse cara tem a oportunidade de sair do seu mundo acaba se surpreendendo com a evolução e capacidade do restante do país.

Eu sou um cara que morou praticamente a vida toda em São Paulo, mas por ter tido oportunidade de viajar bastante tomei ciência dessa caipirice inversa. Mas ainda assim, às vezes acabo batendo em algum lugar novo, que a gente inevitavelmente tem uma ideia pré-concebida, e acabo vendo ou conhecendo coisas que eu realmente não esperava.

Essa semana tive que fazer um rolê a serviço, visitar um cliente em Salvador. Eu já tinha ido pra lá uma vez, até foi a turismo, mas algo muito na correria, tudo agendado e sincronizado, e só conheci alguns poucos pontos turísticos daqueles bem clichês, nem tive tempo de observar a realidade da região. Aí dessa vez seria na correria também, originalmente um bate e volta pra uma única reunião de poucas horas, mas por uma questão de disponibilidade e custo de voos acabei fazendo diferente, voei no dia anterior pra passar a noite na cidade e logo no início da manhã do dia seguinte fazer minha reunião. Aí lógico, já que vai haver tempo livre, a gente se programa pra fazer algo diferente, divertido.

Eu tenho um amigo em Salvador, camarada do meio antigomobilista / hot rod de uma turma grande do Brasil todo que conheci pela internet, mais de 10 anos atrás. Já tinha encontrado esse brother em alguns eventos de carros por aí, até mesmo naquela aparição relâmpago que tinha feito em Salvador, mas oportunidade de fato de dar um rolê tranquilo com ele pela cidade ou tomar uma cerveja com calma seria a primeira vez. Pois bem, avisei que eu ia e de prontidão o cara se ofereceu pra me pegar no aeroporto e providenciar um passeio automobilístico pela metade de tarde que eu teria sobrando por lá. E é aí onde entra a minha caipirice, na minha ideia eu iria ver os carros dele, que eu já conheço bem a história e sei que são de altíssimo padrão, e mais alguma outra coisa bacaninha ou de menor expressão. Afinal, eu moro em São Paulo, carangas locas e exclusivas eu vejo por aqui, a probabilidade de ter coisa do mesmo nível no mundo lá fora é muito pequena, e obviamente se tiver será em quantidade muito menos expressiva. Engano meu! Caras, digo a vocês, não imaginava que em algumas poucas horas eu veria tanta caranga loca, de altíssimo padrão e hots tão animais quanto os que vi nesse rolê!

Saindo do aeroporto com o camarada a primeira parada foi em uma oficina onde estava uma das suas mais novas aquisições, um Ford 33 Fordor. Oficininha simples, daquelas chão sujo, carros amontoados, mas que já de cara bati o olho e várias coisas interessantes lá dentro além do Fordinho. Logo ao lado outro Fordinho, um 29 roadster com banco da sogra, mais ao lado Charger RT preparando caixas para acomodar pneus de arrancada, e até uma raridade inglesa que eu nunca tinha ouvido falar, um tal de Hilllman, muito no estilo dos pequenos Austin, Morris e outras coisas do tipo. Bom, o 33 em si ainda está em fase inicial, basicamente ainda juntando as peças pra começar a montagem, mas já dava pra ver qual seria a dele, com powertrain de Ranger V6 Cologne, DH, suspensão com coil over, largadão no chão, ou seja, um hot estiloso! E a carroceria ajuda no estilo, eu particularmente gosto dessa versão, meio quadrilha da morte, 4 portas suicidas, banco traseiro lá atrás e último vidro que também abre. É exatamente o mesmo modelo em que Bonie e Clyde morreram! Quem olha essa foto pode não sentir firmeza, mas conhecendo esse meu brother tenho certeza que quando pronto será padrão matéria de revista!

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Saindo de lá passamos em outro pico, que sozinho já daria uma reportagem completa. Coleção de um colega desse meu brother com muita coisa fina de todo tipo, nacionais ou gringos, americanos ou europeus, originais ou hots. Alguma coisa eu tirei foto, Jaguar XJ8, Kharmann Guia, Corvair, Fiat 126, Impala, Chevrolet Brasil, Amazonas, Cadillac, F100 hotíssima, C10 com mecânica de Corvette, Mercedes, Mini, Porsche, Rolls Roice, Charger big block e várias outras coisas. E o comentário interessante do dono: “você precisava conhecer o galpão onde eu guardo minha coleção, mas é meio longe daqui e eu não posso ir contigo lá hoje”. Mano, fala sério! Ali era só um apêndice da garagem do cara, a Bat Caverna mesmo era onde o cara guardava outros mais de 60 carros da hora! Calcula!

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Saindo de lá meu brother precisava passar num desmanche comprar algumas tranqueiras, e chegando ao pico, lugar toscão também, chão de terra, tudo largado, cachorro dormindo no banco do carro, mas novamente algumas surpresas. Muita coisa de GM antiga, opalas, caminhonetes, alguns Galaxies, lá no fundo a peãozada mexendo numa F100 vampirinha e num canto um Plymouth 40ealgumacoisa lá jogado, largadão, tristemente meio apodrecendo. Até aí nada de padrão elevado, mas ainda assim surpreende achar um exemplar mais exótico como esse Plymouth assim largadão.

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Próxima parada, já anoitecendo, a garagem do brother! Ahh, como eu acho da hora as carangas dele, duas em particular, que sei que também são suas preferidas. Um Citroen 11 Legere 1954 hot, com V6 GM Vortec, caixa 5 marchas, DH rapidíssima (menos de 2 voltas de batente a batente), e muitos requintes mais. Dei rolê com ele, caranga muito gostosa de andar, roncão do V6 muito da hora, levinho, acelera forte, muito bem equilibrado, bom de chão, caranga loca de tirar uma onda! E o outro… ah cara, nem vou falar muito do outro aqui, esse merece um post só dele, pela imparidade que ele apresenta: um caminhão White Super Power 1956 transformado em caminhonete, no melhor estilo hot, motorzão V8 SBC 350 injetado, largadão no chão, suspensão a ar e muito mais! Lógico que eu dei rolê também, mas isso eu conto pra vocês outro dia, hehehehe.

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Aí beleza, o cara me largou no hotel pra mais tarde me pegar de novo pra batermos uma pizza e umas geladas. E quando eu achava que já não me depararia com mais nada, que o turismo antigomobilístico já tinha acabado, chego à tal pizzaria e a parede forrada de fotos de antigos e hots. A gente se instala em uma mesa na calçada bem na entrada, não demorou muito e vejo o segurança tirar uns cones, e me encosta um Ford 37 também hotíssimo! Cara, que caranga cabulosa, digna de evento de primeiro mundo! Carroceria com design by Chip Foose (sim, isso mesmo, Chip Foose marcando na Bahia!), mecânica Ford Cologne V6, suspensão dianteira de Mustang II, traseira com coil overs, largadão, rodas 18 cromadas e uma infinidade de requintes de muito bom gosto, vários cromos, vários billlets, enfim, um pooota hot muito bem feito! Fiquei lá um tempão batendo papo com o dono, ele me falando de suas outras carangas, mostrou foto de uma F100 59 que ele tinha acabado de fazer, enfim, ainda muita coisa bacana não presente naquele momento e lugar, mas existente no meio antigomobilista dos caras lá da região!

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De lá encerramos o dia, uma última breja na orla e o camarada me deixou no hotel. E pra não deixar de ter surpresas, no dia seguinte, quando ele me deu uma carona até minha reunião, ainda fizemos um inesperado (até pra ele) pit stop em outra oficina onde o camarada mexia em mais uma das suas recentes aquisições, um Miura Sport 79, ainda dos com mecânica VW a ar, mas que no caso do camarada, que não aguenta ter carro original, já havia tido adaptado um AP 1.8. Caras, digo a vocês, eu que não gosto dessas coisinhas pequenas e levinhas, principalmente dessas diversas derivações de mecânica a ar traseira, achei muito simpático o carrinho, não conhecia esse modelo e adorei o design!

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E foi isso meu rolê, curto e surpreendente! Fazendo as contas aqui, acho que eu nunca tinha visto tantas carangas da hora em uma mesma região em um espaço tão curto de tempo, que não fosse em um evento, encontro ou museu de carangas. E olha que eu nem vi tudo, há os muito amigos do clube Veteran de Salvador que meu brother comentou, e dele mesmo ainda havia outras coisas que não tivemos tempo de ir ver, outro Citroen pra fazer e um Fuscão ratão total, que ele chama de surubão!

Mas lógico, não poderia deixar de dar as caras, também tiver a oportunidade de contemplar um belíssimo exemplar daquilo que a gente de São Paulo espera de um hot rod baiano. Ou como esse meu próprio camarada diz, um típico projeto saído da BUNDHA – Baianos Unidos no Desenvolvimento do Hot Abaianado. Deleitem-se com o lindo Opalão da foto abaixo, hehehehe.

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Uma resposta to “Caipira da capital”

  1. Ulisses 25 de julho de 2014 às 07:34 #

    RERE – Hot na veia. DM veio passear em Salvador e eu forneci uma overdose de carros baianos. Muito legal conversar com voce, ainda mais que a gente fala a mesma linguagem, ou seja, mecanica. Até na hora da ultima breja, no larguinho das baianas no Rio Vermelho, quase 11 da noite, ainda rolou altos papos cientificos.

    Beleza, quando vier outra vez a gente tem mais carro ainda pra ver.

    Grande abraço

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